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sexta-feira, julho 23, 2010

cigana (texto n.30)

Uma vez deixei uma cigana ler a minha mão
Achei que iria falar sobre a mulher dos meus sonhos
ou sobre como iria "vencer na vida"

Mas não

A revelação foi de que tenho a linha da vida curta

Depois disso, perpetuei e propaguei essa informação

Teve gente que riu da minha cara
Teve gente que deu um sorriso amarelo e mudou de assunto

Mas uma coisa é certa:
Pelo menos assim não me arrependi mais por nunca ter pago um plano de previdência.



.

quarta-feira, junho 23, 2010

Bem vindos ao clube do Mickey (texto n.29)

Bem vindos ao clube do Mickey!

Para ser sócio, basta ser amigo.

Para ser amigo, basta não contrariar o que eu acredito.

Tem que bater foto abraçados, e apoiar o que digo.

Também não pode falhar nas redes sociais, como um balde de tinta esparramado sobre a superfície, cobrindos todos os poros.

Quem sorrir mais ganha uma estrela ao lado do nome.



Bem vindos ao clube do Mickey!







Uma Vida Burguesa (texto n.28)

Uma Vida Burguesa

O pior de levar uma vida burguesa,
é não se dar conta dela.

Existem vários níveis de burguesia,
mas poucos estão cientes da sua colocação.

Tem os que aceitam, mas que esquecem depois.
A consciência não aparece na hora de gastar
e sim na hora de colaborar/repartir.

O que é pior? Aceitar ou Negar?

Para muita gente eu sou um fudido.
Para muita gente eu sou um burguês.
Para mim?: Vai se fuder!





segunda-feira, maio 10, 2010

Poeminha (texto n.27)

Apagou-se a tal vela,
sem causar emoção profunda.
Não adianta vir ela,
nem com reza, nem com macumba.

Parece filme de terror,
do qual me escalaram para protagonista.
Essa menina não teve pudor
de usar golpe baixo para conquista.

"Não quero velas na minha janela",
Já falei e repito.
Se não quiser ficar banguela,
melhor não ter atrito.

Já disse o grande poeta:
"O desespero é o pior caminho".
Diante de tão pobre a oferta,
prefiro continuar sozinho...


sexta-feira, novembro 06, 2009

Tudo é válido para não se fazer nada (texto n.26)

Tudo é válido para não se fazer nada

Sem inspiração para textos mas com uma religião por dia:
Sexta - mulçumano
Sábado - judeu
Domingo - católico
e por ai vai...

Tudo é válido para não se fazer nada

É nessas horas que ser ateu não é jogo

Politeísmo a favor da procrastinação, com oferendas e reverências na ordem do dia

Tudo é válido para não se fazer nada

sexta-feira, outubro 23, 2009

Removedor de maquiagem automático (texto n.25)

O que é melhor: uma verdade feia ou uma mentira maquiada?

Sempre achei a primeira opção, mas ultimamente tenho preferido mais a segunda.

Muita gente gosta de fingir ser o que não é, de citar autores, filmes, cidades e países. Tudo vale para se provar algo tolo e simples. Uma bengala para qualquer tipo de argumento, principalmente na falta de um.

O intelectualismo muitas vezes se resume em quantas e quais séries americanas estão sendo acompanhadas. Tudo muito verbalmente elaborado, opiniões sólidas e eternas.

Uma frívola receita culinária estrangeira? Por que não? O requinte também esbarra na seção especial do supermercado.

Mas, por mais que a maquiagem seja espessa, eu consigo ver através dela. Pode parecer uma benção, mas no fundo não é.

As vezes que gostaria de acreditar na mentira.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

A Carência (texto n.24)

A Carência.

A carência é algo engraçado. Atua de diversas formas e situações.
Pode ser econômica, espiritual, intelectual, etc, mas sua forma preferida é emocional.

Muita gente é carente. Carente de amigo, carente de amores, carente de atenção, carente até de redes sociais.
Essa última, é uma saga em busca de amigos virtuais, elevando o número de contatos inúteis, resultando também numa carência exibicionista – quem pode mostrar mais, mesmo não tendo nada de interessante para mostrar.

Tem gente que exerce sua carência social ao extremo, forçando intimidade e amizade. Tem gente que fica até agressiva nesse espírito.

O mais interessante é que quanto maior é a carência, menos visão se tem. Os mais desesperados são os que menos entendem os cortes. É fato.

O pior nesse caso é ser alvo de abraços e afagos completamente desnecessários. Aquela apertada de mão quase-infinita, junta de outra mão apoiada no ombro, ou ainda um beijo extremamente indesejado na cabeça, no rosto, ou em qualquer outra parte em que o carente consegue ter acesso.

Ai não tem simpatia, sal-grosso ou macumba que separe. Nem adianta recorrer à máxima do “relaxa e goza”. Não tem como gozar, só chorar.

Apelos também fazem parte, muitas vezes jogando a “amizade” como moeda de troca.

Pensando bem, a carência não é algo engraçado. É simplesmente perturbadora. Dá para rir da carência, mas só quando se tem uma distância segura, e acredite: não vai acontecer.

Mas no final das contas também sou um carente, te fazendo perder tempo lendo esse texto...

.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Vendedores de Flores (texto n.23)

Vendedores de flores – quem os agüenta?

O problema não é a venda, e sim a insistência.

Tem um desses vendedores na minha cidade natal, que sempre me incomodava na noite.
O cara parecia levar a sério a idéia de não aceitar uma negativa como resposta. Dai ficava insistindo: “só uma” “ela merece” e por ai vai.

NUNCA comprei e nem vou comprar.

Deveria ser proibida essa prática. Se eu estiver sentado na mesa de um bar, sozinho ou acompanhado, é porque não quero ser interrompido.

Existem problemas maiores na sociedade, mas essa galera merecia estar na lista de fuzilamento.


ps: texto original de 29/05/2006, achado agora a pouco


terça-feira, novembro 06, 2007

Tropa de Merda

Mais um post seguindo interpretações sobre o filme "Tropa de Elite", mas não numa veia cômica como o anterior.

Quero dizer que gostei do filme, bastante, achei violentamente engraçado, mas parei por aqui.

O que vejo por ai é a galera dizendo "é assim que a polícia tem que ser, igual ao BOPE". É a legitimação da violência. Um voto a favor de um Estado Facista. Claro que essa violência deve ser destinada aos "traficantes", aos fudidos. Mas se esse mesmo cara que está aprovando essa violência policial levar um tapa na cara de um PM, vai mudar rapidinho de opinião.

Outro dia liguei para a Polícia, pedindo o telefone do posto do meu bairro. O policial atendente me passou. Liguei e ninguém atendeu. Liguei novamente para a central para pedir outro número, e o policial falou que não iria dar novamente e desligou na minha cara. Nem quis saber qual era o problema. Detalhe - até onde sei, a polícia é paga para atender a população, e não decidir se deve ou não saber o qual é o problema.

Outro caso: tinha um senhor fazendo uma manobra de carro "estranha" na pista, passou um camburão da PM que insultou o velho, ao invés de ajudar. Ou mesmo tomar as medidas que estão na lei, e dar uma multa se fosse o caso.

"Mas esses são os PM corruptos, e não o BOPE" podem dizer alguns. Não. Não são diferentes, não são mais esclarecidos.

Quem quer ser policial? Gente com mentalidade liberal? Gente com tolerância à diversidade? Gente que prega a igualdade entre os sexos? Tente adivinhar a resposta...

Outra grande falácia do filme é pregar que "estudante maconheiro financia o tráfico". Näo. Quem financia o tráfico é a constituição brasileira, a lei. Já é mais do que sabido que a droga que mais mata no mundo é o Tabaco, depois o Álcool. Toda família já teve um "tio bêbado" que morreu por causa disso. Ninguém morre de fumar maconha, sejamos francos. Aposto que muita gente preferiria comprar o fumo na farmácia, e não subir morro para isso. Muita hipocrisia.

Agora eu vejo notícias de gente usando biquini do BOPE no Rio, ou gente tatuando a "faca na caveira" em Porto Alegre, e por ai vai...

Minha conclusão é: VOCÊS ESTÃO LOUCOS????

A fundamentação de qualquer instituição militar é reacionária, seja PM ou Exército (salvo algumas exceções). Já esqueceram o que aconteceu na ditadura militar? Quantos inocentes morreram? Agora aprovam a violência de um Estado policial?

Todo mundo achou bonito o traficante levar tiro de 12 na cara (no filme), mas ninguém questionou por que não prenderam e o levaram a julgamento? Todo mundo achou bonito o "estudante" levar tapa na cara, ou mesmo o moleque sendo torturado com o saco de plástico na cabeça + porradas, mas é para isso que serve a polícia?

A polícia existe para SERVIR a sociedade, e não para BATER, REPREENDER e MATAR a bel prazer.

As vezes penso que brasileiro gosta de ser otário...

quarta-feira, setembro 12, 2007

It is time (es ist jetzt Zeit)!

Moin,

eu to atualmente escrevendo um paper pra uma conferencia. Escrever papers eh uma tarefa muito complicada, pois parece ter sido arquitetada pra permitir procrastinacao sem limites. A Procrastination Society deveria ser baseada em escrever papers. A cada sentença vao-se lah uns 3 ou 4 websites inúteis; a cada parágrafo, alguma outra coisa que "eu nao posso deixar pra depois" aparece, algo como reler os posts do blog da villa. Essencial, diria um velho amigo, como um abajour quando ainda nao se tem a cama.

Pois que dei uma olhada nos blogs do ano passado. E gostei do que vi, sinceramente. Tivemos bons momentos nesse blog, tivemos uns posts artisticos, umas viagens interessantes, tinha conteúdo. De uns tempos pra cah, as coisas miaram. Claro que muito tem que ver com o fato da gente nao mais estar morando juntos, eu estar agora "casado" e o johnny nao estar mais na alemanha. A tia lets nao sei porque nao escreve mais. De qualquer forma, acho que o motivo principal eh que a gente nao se junta mais pra beber e conversar como antigamente. Eh claro que eu nao posso me encontrar com o johnny pra tomar umas, porque tem uma certa distancia, mas eu acabo nao me juntando com os amigos daqui, ele acaba nao juntando com os amigos de lah, pelo menos nao como antes.

Isso eh a idade? Sao os compromissos? Eh o pais onde eu estou, que sobretaxa o álcool e enche o saco com barulho? Eh tudo em conjunto?

Nao sei, soh sei que eh hora de tomar uma providencia. Nao sei se isso envolve necessariamente voltar a beber com os amigos, ou se eh simplesmente questao de "estar no animo de escrever". Mas algo tem que ser feito.

Bom, deixa eu voltar pro meu paper que meu orientador jah jah me liga do japao.

[]s
Bart

terça-feira, maio 01, 2007

Sucesso Forçado (texto n.22)

O sucesso forçado está ai.
Está no dia.
Está na noite.

O sucesso forçado está também na necessidade de exibir a felicidade. Fotos abraçados. A galera, um punhado dos teus 487 amigos registrados. A tal bala mágica chamada balada, que derrete na boca congelando o sorriso brilhante! Sempre limpo, sempre de bom hálito.

O sucesso forçado está naquele colega que depois de longo tempo sem contato manda noticias para dizer que está de viagem pela Europa, como se uma viagem turística fosse realmente alguma façanha, um mérito, e não uma pura questão monetária (99% das vezes bancada pelo bolso do papai).

O sucesso forçado está na falsa liberação sexual que beira a um modelo altamente repressor. O sexo pelo sexo. Não acompanha nenhuma liberação mental, apenas auto-escravidão sexual. O paraíso privado.

O sucesso forçado que está na pressão da estética. Na preocupação desesperada em emagrecer, estar em forma. Não para si, mas para o que está atrás da porta da casa. Sem nenhuma utilidade, nenhuma usabilidade.

O sucesso forçado do país dos juniores. O Júnior que se elege para deputado, mas que nunca fez porra nenhuma na vida. Mas é a extensão do sucesso forçado paterno. Destaque da coluna social.

O sucesso forçado está na necessidade de afirmação, da necessidade debilóide de dizer para o máximo de pessoas possíveis que “deu certo”, ou que “está numa boa”. Todos príncipes, já disse Fernando Pessoa.

O sucesso forçado está ai. Faz tempo.

A crítica não é nova, nem a merda. Só as moscas.





sábado, março 31, 2007

The Genius of the Crowd





there is enough treachery, hatred violence absurdity in the average
human being to supply any given army on any given day

and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone

beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average

but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody
not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own
not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world
not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect

like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like hemlock

their finest art

Charles Bukowski


segunda-feira, março 26, 2007

Balada do Di Cavalcanti


Amigo Di Cavalcanti
A hora é grave e
inconstante.
Tudo aquilo que prezamos
O povo, a arte, a cultura
Vemos sendo desfigurado
Pelos homens do passado
Que por terror ao futuro
Optaram pela tortura.
Poeta Di Cavalcanti
Nossas coisas bem-amadas
Neste mesmo exato instante
Estão sendo desfiguradas.
Hay que luchar, Cavalcanti
Como diria Neruda.
Por isso, pinta, pintor
Pinta, pinta, pinta, pinta
Pinta o ódio e pinta o amor
Com o sangue de tua tinta
Pinta as mulheres de cor
Na sua desgraça distinta
Pinta o fruto e pinta a flor
Pinta tudo que não minta
Pinta o riso e pinta a dor
Pinta sem abstracionismo
Pinta a Vida, pintador
No teu mágico realismo!

Carioca Di Cavalcanti:
Na rua do Riachuelo
Nasceste, a 6 de setembro
Do ano noventa e sete.
Infante, foste criado
No bairro de São Cristóvão
Na chácara do avô materno
Emiliano Rosa de Senna
(Nome de avô de pintor!)
Orgulhoso proprietário
Do antigo morro do Pinto
(Quem sabe não vem de herança
O teu amor às mulatas?)
Logo os bairros se renovam:
Botafogo, Glória (hotel)
Copacabana e Catete
(O Catete de onde nunca
Deverias ter saído
E ao qual agora voltaste
Humilde e reconhecido).
Moraste no hotel Central
E no hotel dos Estrangeiros:
Ambos desaparecidos
E onde à tarde, entre os amigos
Tomavas, e com que gosto
O melhor uísque do mundo!
Paquetá, um céu profundo
Que não sabe onde acabar
Viu-te muito passear
Ó genial vagabundo!
- Quantas vezes foste à Europa
Dize-me, grão-vagamundo?

No ano de trinta e oito
Em Paris te descobri
Rimos e bebemos muito
Nos bares de por ali
Lembras-te, Di? Consue-
Lo de Saint-Exupéry
Saía sempre conosco
E mais o sargento Thyrso
Que uma noite lá, por pouco
Não sai no braço comigo.
Como foste meu irmão!
Como eu fiquei teu amigo!
E no México, te lembras?
Com Neruda e com Siqueiros
E a linda Maria Asúnsolo
Que tenia blanco el pelo
Bebemos tanta tequilla
Que até dava gosto ver-nos
A comer com gulodice
Um prato de tacos pleno!
Mais de setecentas luas
Ungiram tua cabeça
Que hoje é branca como a Lua
Mas continua travessa…
Que bom existas, pintor
Enamorado das ruas
Que bom vivas, que bom sejas
Que bom lutes e construas:
Poeta o mais carioca
Pintor o mais brasileiro
Entidade a mais dileta
Do meu Rio de Janeiro
- Perdão, meu irmão poeta:
Nosso Rio de Janeiro!


São Paulo, nos 66 anos do pintor mais jovem do Brasil, 06.09.1963

=================

Poesia de Vinícius de Moraes publicada no livro Poesia completa e prosa, em Poesias coligidas e enunciada por Gláuber Rocha no filme: "Di Cavalcanti Di Glauber"
Titulo Original do filme: "Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de sua Quimera, Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável."


Filme disponível para download no:
http://www.tempoglauber.com.br/di2.WMV

ps: A exibição do filme está interditada pela justiça desde 1979, quando da conceção de liminar pela 7a. Vara Cível, ao mandado de segurança impetrado pela filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti.


domingo, março 18, 2007

"God Bless!"



St. Patrick's Day, o pub fechando muito além das onze. Pelo chão os resquícios de beberrões desleixados, massos de cigarro amassados e bitucas, assim como bebados ainda espalhados por mesas, vestindo verde, com seus chapéus e tolos sorrisos. No balcão a garçonete me informa que o bar está fechado, deixo o lugar com o sentimento que não vou poder beber esse santo. Já na calçada ouço a voz familiar do gerente me oferecendo a última Guinnes por eu ser frequentadora da casa, com ela vem o comentário "é sempre bom conhecer as pessoas certas, cheers".
Sento, enrolo um cigarro e assisto três jovens, algumas mesas a frente, se rindo e falando alto. O rapaz levanta, afrouxa o cinto e parece abrir o zipper, arruma a indumentária como que preparando para o uso. Sim, ele se joga sobre a garota sentada no longo sofá. A amiga olha para os lados, sem acreditar, cobre o rosto com o cardápio. O casal se experimenta, mãos por debaixo da mesa brincam compenetradas diante de olhos desatentos. Sem pudor ou senso de direção, não chegam a lugar algum. Ele num gesto de impotência, em pé, guardando o que tinha de fora, grita com a amiga, que risonha, faz pouco caso deles.
Meu conhecido gerente vem em alto e bom som, ordenando que todos acabem seus drinks e vão embora. Eles voltam a conversar como nada acontecido, enquanto outros, inclusive minha pessoa, deixam a cena alterados pelo álcool. Encerramos a noite sem encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris, mas certos que o porre e a ressaca na manhã seguinte foram abençoados, não importando se irlandeses ou não, sem necessidade de desculpas ou correta nacionalidade. "God bless us all!".

quarta-feira, março 14, 2007

born into this




born like this
into this
as the chalk faces smile
as Mrs. Death laughs
as political landscapes dissolve
as the oily fish spit out their oily prey

we are
born like this
into this
into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
into a country where the jails are full and the madhouses closed
into a place where the masses elevate fools into rich heroes

born into this
walking and living through this
dying because of this
castrated
debauched
disinherited
because of this
the fingers reach toward an unresponsive god

the fingers reach for the bottle
the pill
the powder

we are born into this sorrowful deadliness
there will be open and unpunished murder in the streets
it will be guns and roving mobs
land will be useless
food will become a diminishing return
nuclear power will be taken over by the many
explosions will continually shake the earth
radiated men will eat the flesh of radiated men
the rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind

and there will be the most beautiful silence never heard

born out of that.

The sun hidden there
awaiting the next chapter.


Bukowski


segunda-feira, março 12, 2007

Da Memória


A noite trazia uma brisa fresca anunciando o fim dos dias quentes e o inicio de um outono. As sextas feiras à muito deixaram de ser o escape, já que a juventude se extinguia como o verão e Verônica preferia agraciar seu corpo com merecido descanso após as atarefadas semanas. E estas noites de sábado tornaram-se a nova tortura, uma que não sabia se auto-impingida, ou se de alguma forma resultado da ordem natural do universo.
Seguiu caminhando à uma festa, acompanhada de um colega. Mais uma festa qualquer. Nunca tivera sido plenamente feliz, mas de certa forma não acreditava em felicidade plena. Tivera sido mais feliz que agora, e esse relativismo fazia da outrora infelicidade, uma felicidade plena. Nada era satisfatório. Não que fosse por demasiado exigente, não que menosprezasse pura e simplesmente toda a qualidade daquilo que tinha. Mas a comparação era inevitável. Sua memória se comportava como uma memória deve ser comportar, e lhe aplicava truques alucinatórios, esquecendo de propósito os desencantos e desesperos, guardando e apresentando somente os brilhos e acalantos. Tinha certeza de que estava sendo enganada, mas isso de maneira alguma diminuía o seu desejo de sair dali, de desaparecer e de alguma forma resgatar o tempo passado.
A luz incomodava. Era uma festa e a luz forte fazia com que se sentisse vigiada. Cada detalhe de seu rosto podia ser lido e todo o pensamento desvendado. Nada se deixava para ser descoberto. Nada era intrigante e nada era interessante. Tudo era claro e óbvio. Queria apagar a luz.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Quanto riso, quanta alegria

Confesso: fracassei.

Não suportei permanecer todo o tempo diante da TV durante as transmissões da "maior festa do Brasil". Temi por um dano maior. Ainda assim, foram horas, muitas horas que não me serviram para absolutamente nada. Tudo poderia ter sido condensado em 10 minutos.

De longe, com vários e vários corpos de vantagem, Nelson Rubens, na RedeTV!, como seu "Bastidores do Carnaval", fica com o troféu do pior programa.

Nelson ok ok tem o sorriso mais falso do mundo. Minto. Talvez não seja falso. É o sorriso repleto de aleivosia, típico do fofoqueiro, do personagem que ele decidiu viver. E é um sorriso que se desarma sempre meio segundo antes da câmera sair, deixando claro que não está feliz, não está compartilhando nada com ninguém.

A "equipe de reportagem" não conseguia ir muito além das frases: "E aí? Muita emoção?" E o final que se repetiu 795 vezes: "Agora mostra pra gente que você tem o samba no pé". Uma cena espetacular: falando sobre a tal da emoção, a passista nos conta que, quando entra na avenida, sente um friozinho na barriga. Pois acreditem, o câmera corrigiu para a barriga da moça. Comentário de um amigo: "Tá fácil ser repórter hoje em dia, não tá?"

O Carnaval pela Band, o Folia na Band, admito que estava bem mais rico que das outras vezes. Tenho problemas com Otaviano Costa. Na minha opinião ele poderia fazer uma dupla com Celso Portioli para rodarem pelo interior apresentando baile de debutantes. Tento explicar o incômodo, o estranhamento que senti ao ver durante horas o Folia na Band. Deixou de ser uma transmissão do carnaval da Bahia. Transformou-se em um programa de auditório. O auditório, no caso, era formado por trios e bandas, além do povo pulante. E pela falta de espaço, o povo pulante era pequeno. Povo caminhante com dificuldade via-se mais.

Imagino que, segundo acordo firmado entre emissora e participantes do Carnaval, todos deveriam parar em frente ao palco e bater aquele papinho gostoso com Betinho e Otaviano. Deveriam ainda enaltecer a Band, seu trabalho maravilhoso, mostrar que gozavam de intimidade com os apresentadores e vice-versa. E foram muitas as vezes que esses mestres de cerimônia atravessaram o "samba". Marcio, da banda Psirico, decide rodar um som tecno. Otaviano se anima e começa fazer seu beatbox - sons com a boca colada ao microfone. E faltou a noção do tempo. E sobrou entusiasmo. E a cena foi ficando constrangedora.

Sempre no quesito constrangimento, a drag Léo Aquila, no Bastidores do Carnaval, volta e meia pedia ao câmera: "Começa aqui em baixo. Agora vai subindo. Olha isso, que maravilha, gente. Que deusa!" Vi essa cena se repetir umas 5 vezes. Em todas as vezes meus olhos foram agredidos. Deusas de um reino perdido que, espero francamente, jamais seja descoberto e revelado.

Mas nenhum, nenhum constrangimento foi maior que o provocado pela Mangueira ao expulsar Beth Carvalho de seu desfile.

Semana que vem volto ao assunto.


Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.

fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1423452-EI6616,00.html

Alinhar ao centro

domingo, janeiro 07, 2007

texto n.21 (Caio)

Caio era um babaca. Um babaca sem tirar nem por. Tipo completo: piadas sem graça, colocava som alto (e ruim) na praia, tinha amigos que bancava para sempre ter sua turma de bajuladores, etc.

Seu pai era deputado (o que facilitava muita coisa), e tinha um desses show televisivos (que facilita mais ainda) que distribuem prêmios para solteironas que não fazem nada além de ficar com a bunda plantada na frente da TV, sonhando em serem sorteadas com o carnê, para enfim poderem comprar um novo jogo de pratos e um liquidificador.

Apesar de todo o suporte monetário, Caio era feio. Além de babaca era feio pra caralho. Claro que a grana ajudava nesse problema, mas todo dia antes de dormir, se olhava no espelho e percebia que se não fosse a grana e o nome do papai, estaria fudido.

Como terminou a história? Caio conheceu e se casou com uma assistente de palco do programa do pai (promovida depois) e hoje também é deputado.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Um vazio

A geladeira, antes repleta de cerveja e das mais deliciosas iguarias, estava vazia. Do freezer retirou as forminhas ainda com gelo. Despejou os cubos na pia, que outrora estivera suja de bloody mary, de lasanhas, yakisobas e salsichas. Lembrou-se um pouco do enorme perú, mas também do fedor de cigarro com limão das manhãs de domingo.
Saiu da cozinha e avistou o quarto. As memórias de uma vida não passaram em flash como em filmes. Sua mente foi sã o suficiente para poupá-lo disso. No entanto, perturbou-se com a nova decoração, uma mistura de móveis seus com velharias, transformando o quarto em uma sala de tv.
Passando pelo banheiro olhou o espelho que tantos rostos refletira. Refletiu por um instante na semelhança entre o seu refletir e o do espelho. Achou graça e animou-se um pouco. Entrou por uma última vez no outro quarto, de onde se podia ver um grande pinheiro por uma ampla janela. Estava cheio de novas coisas, mas tão, tão vazio.
A parede amarela do corredor não projetou sua cor no teto, como acontecera em tantas noites mágicas.
Saiu e fechou a porta.

terça-feira, outubro 24, 2006

Da solidão.



O fim da tarde de outono trazia nuvens escuras, a óbvia previsão de chuva e aquela inquietante sensacão de solidão. Não entendia como podia a sua solidão ser tão elétrica. Imaginara a solidão algo calmo, cortante mas sereno, pois afinal, não se tem mais nada. Se está só. Porque então essa tensão, esse fervor, se era estar só que sentia?

Sabia que teria problemas pra chegar em casa. A chuva viria, as ruas alagariam, os ônibus lotariam. Resolveu que não se curvaria ao tempo. Se ao menos tivesse hoje podido visitar o banheiro em paz. Mas não. Estivera o dia todo ocupada. E quando tinha alguma folga dos clientes, o chefe não perdoava. Olhava-o e imediatamente vinha em sua memória a página do dicionário. Tinha olhado na semana anterior. Gosmento, que tem gosma ou consistência de gosma, babento, baboso, que escarra muito, catarrento, adoentado, fraco. Sabia que todas as definicoes cabiam-lhe perfeitamente, mas preferia "fraco". O chefe era um fraco. Um fraco, que tinha algum poder. Se é que se pode chamar "poder", ser chefe das vendedoras de sapato naquela loja. Mas transformava esse pequeno ecossistema em seu universo pessoal e abusava deste efêmero poder. Um fraco.

Parou de divagar. Resolveu que não se curvaria ao tempo, repetiu. Tinha que repetir suas decisões mentalmente, seguidamente, como que pra realmente se convencer. Não se curvaria ao tempo. A qual tempo se referia? Não sabia mais. Possivelmente ambos.

Acabado o expediente, a solidão ainda no peito acompanhava a disposicão de chegar em casa, já que o céu ameacador ainda permanecesse na ameaca. A pé, cortando caminho pelo parque, evitaria os ônibus e os inconvenientes das multidões amplificadoras da solidão. Caminhava lentamente por entre as árvores, respirava o ar mais puro possível naquela cidade. Lembrou-se do cheiro que havia comecado tudo. Precisava chegar em casa. Então deu-se conta de que näo. Não precisava chegar em casa. O que havia lá?

A promessa então se cumpriu e dos céus veio uma chuva de gotas gordas, daquelas que encharcam antes de que se tenha chance de abrigo. Afinal, pra que se abrigar da água? Havia visto na TV. Ou num livro, quem sabe. Provavelmente na TV, mas gostava de pensar que tinha lido, e que havia imaginado por conta própria a imagem da sedutora mocinha solitária embaixo da chuva. A chuva redentora. A chuva que tem que estar em toda história de sofrimento e amor. Sentiu-se a mocinha. Levantou os bracos para o céu, como tinha imaginado, ou visto. Fechou os olhos e ficou sentindo cada gota de chuva que encostava em seu corpo. Sentia quanto uma gota maior tocava seus lábios e sentia prazer quando esta se atrevia em seus seios. O cheiro. A água invadiu suas roupas e sentia que invadia mais que isso. Mas sabia que era água o que tinha por companhia. Sabia que não passava de uma solitária que já encontrava na chuva um parceiro. Precisava gritar. Precisava pegar o responsável por tudo isso pelo pescoco. Pega-lo, coloca-lo numa cadeira, amarrado, espanca-lo. Ou melhor, deixa-lo. Deixa-lo amarrado a uma cadeira, uma TV à sua frente. Todo dia, novela. Todo dia algo feliz, alguém mais feliz, alguém mais bonito, alguém mais magro, alguém mais perfeito, alguém Mais.

A chuva então cessou. E Verônica se sentiu ridícula, toda molhada, parada no meio do parque com as mäo erguidas aos céus.